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07 de fevereiro de 2007
Christina Carvalho Pinto defende que o despertar para o desenvolvimento sustentável é vital para a sobrevivência do planeta e das empresas

Principal nome feminino da história da propaganda brasileira e eleita um dos dez maiores empreendedores brasi­leiros em 2005, Christina Carvalho Pinto, presidente e sócia proprietária do grupo Full Jazz, fala sobre sua carreira como executiva e empresária, e defende a responsabilidade comum de todos os profissionais pelo futuro do mercado e do planeta.
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EXPM: Em qualquer pesquisa sobre propa­ganda brasileira, seu nome aparece entre os principais nomes, também como o maior expoente feminino. A partir de um certo momento, sua trajetória é pública e conhecida, mas a pergunta é: como você começou, quais foram os primeiros passos para chegar até aqui?

Christina Carvalho Pinto: É muito difícil alguém dizer como começou. Apesar de a propaganda não ter sido uma escolha originalmente minha, estou nesse merca­do há tantos anos, então tornou-se minha escolha em determinado momento da vida. Como fiz boa parte da minha trajetória como redatora, acho que começou aos 9 anos, quando comecei a escrever crônicas, contos e poemas. A palavra foi, talvez, o dom mais poderoso que o céu me deu e eu percebi isso já nessa fase de infância. Acho que todos nós temos muito dons, não é? Por exemplo, nas aulas de redação sempre tirei as melhores notas, enquanto que nos trabalhos manuais tirei todos os zeros. Cheguei a fazer uma troca com meus colegas: eu fazia redação para todos e eles faziam trabalhos para mim (risos).

Depois, houve um segundo fator muito importante. Morei dos 13 aos 17 em Cam­pinas... minha infância passei em Dois Córregos, onde eu nasci. Quando fiz 17 anos, decidi que eu não queria mais morar na casa dos meus pais. Decidi que queria morar em São Paulo e era muito mais um grito de independência pessoal do que uma escolha profissional. Fiquei sem saber o que fazer, porque o que eu fazia mesmo era música e literatura, só fazia isso, me formei em música, sou pianista, sou bai­larina formada e também, naquela fase, tinha sido convidada pelo melhor cursinho lá de Campinas para dar aula de gramática e literatura. Me encantei e dei aulas o ano inteiro, quando chegou o fim do ano, eu não tinha escolhido o que eu queria pres­tar. Aí, um dos meus irmãos falou que eu deveria tentar um estágio numa agência de propaganda. Assim consegui meu primeiro estágio, numa agência que, na época, era muito famosa, chamada P.A. Nascimento, o dono era o Paulo Arthur Nascimento, hoje já falecido. A partir daí comecei a gostar do desafio. Era tão mais difícil do que eu imaginava, tão mais infinitamente difícil do que eu supunha, que acho que me motivou.

EXPM: E a música, a dança, ficaram de lado?

Christina: Não, eu continuei dançando quando vim para São Paulo, participei de muitos espetáculos de dança, no Teatro Municipal. Eu tinha me formado em clás­sico, em folclórico, em afro-brasileiro e aprendi mais da dança moderna, a dança de vanguarda, e uma série de outras téc­nicas, depois fui fazer jazz. Isso foi já em São Paulo, como trainee de redação, ou como redatora júnior, que foi meu segundo emprego, na Thompson. Quando me for­mei de fato em piano, pelo Conservatório Musical Campinas, que na época tinha uma associação com a PUC campinas, eu já era diretora de criação na McCannEricksson, já tinha filho, as coisas foram meio compli­cadas nesta fase, mas valeram a pena.

  EXPM: Você, a certa hora, abandonou uma posição confortável de presidente de uma das maiores agências, de um grupo multi­nacional do Brasil, e partiu para um novo desafio: criar a sua agência. Muito mais do que apenas um nome, o funcionamento da Full Jazz é inspirado no funcionamento de uma banda de Jazz. Como você explica o diferencial desse formato de trabalho?

Christina: Durante 8 anos nos quais fui sócia do grupo Young & Rubicam, percebi claramente que a estrutura, o desenho de gestão, o desenho operacional das agências de propaganda naquele momento, 1996, era o mesmo desenho de nossos clientes, piramidal e fortemente hierarquizado. Per­cebi que isso engessava a minha atuação criativa e que o mundo corporativo estava se redesenhando, na minha visão não se redesenhava para o melhor formato. O que estava acontecendo era o que se chamava de reengenharia, que nada mais foi do que o enxugamento radical dos quadros das corporações, com um aumento alarmante do desemprego no mundo inteiro. Eu co­mecei a perceber que esse enxugamento mantinha o único lado ruim, que era a hierarquia exagerada, o engessamento dos postos de trabalho. Se por um lado a gente tinha uma crítica muito aguda ao que esta­va acontecendo no mundo corporativo, por outro lado, nosso setor não estava fazendo nada diferente, nós também estavamos imitando tudo igualzinho...

EXPM: Criticando e assistindo...

Christina: Isso! O mercado publicitário jogou na rua por volta de 17 mil pessoas em 5 anos. Então, eu achei que seria inte­ressante entender, dentro da metáfora da música, se vale a pena a gente ser sempre o regente da orquestra. Optei, então, pelo modelo da banda de jazz. O que significa isso do ponto de vista prático? A primeira coisa que nós fizemos foi desestruturar o sistema de departamento. O atendimento se senta numa célula circular, junto com alguém de mídia e alguém de planejamento estratégico e essa célula atende um grupo de clientes. Então, você cria várias bandas de Jazz, dentro do desenho operacional da empresa, e o cliente é parte intrínseca dessa banda.

Segunda coisa: a verdadeira delegação de poder. Desde que fundamos a Full Jazz, queríamos exercitar e treinar um sistema de liderança compartilhada, através do qual todos os que trabalham dentro do gru­po Full Jazz são estimulados a desenvolver a sua criatividade, sua iniciativa pessoal. Aqui é permitido errar. Se eu não posso errar, eu não abro a boca. Quem vai abrir a boca numa reunião, se todo mundo der risada do que eu falei? O desafio foi: Como destravar as pessoas? Nos últimos 3 anos e de maneira muito expressiva, para minha alegria, no último ano, a liderança com­partilhada começou a exercer o seu papel de maneira forte, criativa, independente, ativa e decisória. Hoje a operação do grupo Full Jazz, das nossas diferentes empresas, está em mãos dos líderes, pessoas que de fato fazem acontecer.

A terceira parte dessa metáfora é a universalidade do jazz. Ser uma empresa nacional não significa, em pleno terceiro milênio, que você seja uma empresa xe­nofobista ou limitada. O mundo da criati­vidade é totalmente universal e ilimitado, o jazz é um excelente exemplo disso. A metáfora do jazz quer dizer a capacidade de trabalhar de forma não-arrogante, a banda de jazz sabe de sua interdependên­cia, mais do que qualquer outro tipo de grupo. A grande diferença é essa, tudo o que aprendi, eu vou usar com liberdade ou sem liberdade? Se puder usar com liberdade, como acontece numa banda de jazz, então eu vou poder realmente gerar o novo, ter a liberdade individual de usar as minhas competências, somando a elas a minha alma. Não posso ser arrogante para fazer jazz, pode ser que eu estivesse pensando em começar um solo, mas você veio com uma temática imperdível, eu não posso impor o meu desejo sobre o teu, eu sou o teu suporte... e sou seu fã.  

EXPM: Como você já escreveu, inclusive citando Peter Drucker, o brasileiro tem características inerentes que facilitam o caminho para o empreendedorismo. No cenário atual brasileiro, o empreendedo­rismo exerce a força que pode e deve ter ou está aquém? O que pode ser melhorado nesse sentido?  

Christina: Muito importante essa per­gunta. Eu faço parte dessa mega corrente de empreendedores brasileiros, que acreditam no poder dessas nossas idéias

inovadoras, que lutam por essa capaci­dade nossa de inovar e de por em prática, porque a inovação é a criatividade eficaz. Eu posso dizer que sou criativa e isso não vai mudar o mundo, mas quando digo que sou inovadora, o verdadeiro sentido disso deveria ser de criatividade eficaz, criativi­dade capaz de modificar cenários positi­vamente. O Brasil está entre os países que tem um modelo de gestão mais sofisticado e inovador e isso não é de agora. Somos exemplo mundial de atuação e sofisticação na criatividade e na maneira de transfor­mar essa criatividade em algo produtivo e transformador. Até aí perfeito, mas a gente consegue avançar? Não! Primeiro porque os impostos se multiplicaram no setor de prestadores de serviço. É de perder o gosto por empreender. A segunda coisa é que o sistema burocrático brasileiro é inacredi­tavelmente lento, tudo trava... para abrir uma empresa você demora meses, para fechar leva anos. Não adianta só ter bri­lhantes empreendedores, são necessários sistemas regulatório, fiscal e de patentes favoráveis. Se a nossa capacidade é de ino­vação, é necessário um sistema de patentes incrivelmente rápido, eficaz e protetor dessa capacidade brasileira. Eu parei de fazer palestra sobre empreendedorismo, eu parei de escrever, porque eu me julgo irresponsável neste momento de estimular o empreendedorismo, num país que não quer os empreendedores.

EXPM: Vamos para outra bandeira que você de­fende bastante que é a da Responsabilidade Social. Existe uma maioria de opiniões favoráveis, mas também existem as con­trárias, defendidas em artigos inclusive, que dizem que responsabilidade social em propaganda é coisa de uma “patrulha ideológica”, que a função da propaganda é exclusivamente vender. Qual sua opinião sobre isso?

Christina: Olha gente, que coisa incrí­vel... eu acabei de sair de uma palestra do Fernando Almeida, presidente do CBDS, Conselho Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável. Participei de debates, com cientistas e pesquisadores, que disseram que o planeta tem 5 anos de vida, Al Gore falou em 10. É urgente, é emergencial, não é mais um papo cabeça, você precisa assumir a responsabilidade perante o planeta. A propaganda é uma ferramenta poderosíssima de mobilização, a mídia se tornou o grande “deus” do planeta, porque é o único que fala com o planeta inteiro, simultaneamente, 24 horas por dia, e seu papel vem sendo discutido no mundo inteiro. As empresas estão descobrindo que o assunto não é só vender, e nós, pu­blicitários, vamos dizer que o assunto é só vender? O que nós estamos fazendo com toda a informação a que temos acesso? Quando fizemos o lançamento do Imagens e Vozes de Esperança (www.ive.org.br), aqui em São Paulo, fizemos uma coletiva e enviamos 40 convites só para líderes da imprensa. Estamos cansados de saber que dos 40, vem no máximo 10, e não vem o líder, vem um repórter para ver do que se trata. Não só vieram os 40, como trouxe­ram convidados! E sabe o que eles estavam dizendo? Que isso aqui é tudo o que a mídia está precisando, todos os setores envol­vidos com comunicação, publicitários, jornalistas, cineastas, fotógrafos, escritores de novela, animadores de auditório, todos! E acima de tudo os donos de veículos, o que eles mais precisam e nós precisamos agora, é mobilizar a indústria da comunicação para iniciativas que ajudem a estancar o tamanho da encrenca que nós mesmos criamos. Dizer que a propaganda não tem nada a ver com responsabilidade social, ou pior do que tudo, isolar o senso de res­ponsabilidade do papel do publicitário... isso é chocante!

EXPM:: Quando falamos de responsabilidade social e empreendedorismo, falamos de futuro. Em um texto no site da Full Jazz, você coloca que a principal pergunta que o publicitário precisa responder, para traba­lhar nesse cenário que se desenha é “Qual o papel do publicitário?”. Como descobrir a resposta para essa pergunta?

Christina: É muito simples! Se os publi­citários não tiverem a capacidade de ser vanguarda, sejam seguidores de novo. As empresas estão desenvolvendo pro­cessos gigantescos voltados à sustenta­bilidade, porque perceberam que é uma questão de sobrevivência. Cabe, então, a nós, desenvolvermos processos para expressar e estimular a sustentabilidade das marcas. E não é que elas podem, elas têm que ser! Dois anos atrás eu diria que elas podem, hoje eu digo que é obriga­tório. Porque eu digo que é obrigatório? O CBDS apresentou que as corporações estão fazendo estudos e concluíram que no ano de 2015, 75% das empresas exis­tentes não serão as mesmas de hoje. Isso é um dado estatístico.

EXPM:: Então, agora, para encerrar, duas perguntas tradicionais que fazemos sempre ao final das entrevistas. Qual as dicas que você dá para quem está come­çando e qual a importância que você ve num trabalho de ex-alunos, como um prolongamento da atividade de ensino e do relacionamento com seu meio?

Christina: Acho que a primeira dica que eu queria dar, essa dica é do fundo do meu coração, é: ao despertar, des­pertem as universidades. O papel, hoje, das jovens lideranças no cenário acadê­mico tem a mesma dimensão do papel dos líderes das grandes corporações na condução da reconstrução imediata do planeta. Façam absoluta questão de participar da estrutura curricular e extra curricular, como o novo Centro de Inovação e Criatividade.

Eu acho que as academias, em grande parte, não estão preparadas para este tema. A ESPM tomou uma decisão in­teressante, criar o Centro de Inovação e Criatividade, eu tenho muita honra de ter sugerido isso, a minha sugestão de nome era “o laboratório do novo”. Os alunos e ex-alunos precisam chegar na gestão da academia e dizer: Nós quere­mos um mundo novo! Nós queremos que esse centro seja um centro de dissemina­ção de um novo mundo! A primeira dica é: Movam-se!

A segunda dica é, caso vocês duvidem do que eu estou falando, não deixem de assistir “Uma verdade inconveniente” do Al Gore, não deixem de ler o livro, não deixem de exigir que a universidade acorde para esta verdade, porque todas as profissões têm um papel urgente, todas, sem exceção. O que mais que eu posso dar de dica? Corram! 

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Última Atualização ( 12 de fevereiro de 2007 )
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