Ter ou Ser?
Novamente o texto dessa semana foi motivado por uma resposta ao texto da semana passada. Preocupou-me o fato de possivelmente ter passado a idéia de que devemos abrir mão de nossos bens materiais e nos dedicar apenas a práticas internas, pois como meu amigo me escreveu “Projetar a sua felicidade no acúmulo de bens é tão perverso e danoso quanto projetar sua felicidade na ausência de bens.”
Isso me lembrou a história de um discípulo de Buda, um rico príncipe, que vivia no máximo da opulência possível, que ao conhecer Gautama Buda pediu para segui-lo. Buda achou que seria improdutivo para este príncipe segui-lo, mas o príncipe prometeu ser o mais dedicado dos discípulos, e assim foi aceito. Entretanto, como Buda desconfiara, ao abandonar seu reino o príncipe compensou a opulência em que viveu até aquele momento buscando a mais absoluta miséria, ou seja, o príncipe foi de um extremo a outro.
Quando escolhemos o caminho do Ser, e abandonamos o Ter, é preciso ter o cuidado de não ir de um extremo a outro, é importante entender que valorizar o Ser não significa viver apenas com a roupa do corpo, e que morar numa boa casa, andar em carros luxuosos ou trocar de celular a cada seis meses não é necessariamente um pecado.
O fundamental é não cairmos na ilusão de que só conseguiremos ser pessoas melhores quando conquistarmos mais bens do que temos hoje. É isso que me preocupa tanto na busca do Ter. Quando conquistamos, com nosso esforço e dedicação, bons empregos que geram bons salários, não há nada de errado em aproveitarmos o que esse recurso pode nos proporcionar, mas devemos ter cuidado para não criar uma identificação tão grande com o que temos a ponto de não aceitar viver com menos caso a vida mude de rumos.
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